Por que nos arrependemos e como podemos nos livrar dessa culpa

Todos nós já ouvimos alguém dizer, geralmente antes de realizar um ato um pouco mais imprudente, aquela expressão “Sem arrependimentos!”. No entanto, por mais atraente que a filosofia do “viver sem arrependimentos” possa parecer, adotá-la em nossas vidas geralmente não é algo tão simples.

  • Nos arrependemos de oportunidades perdidas.
  • Nos arrependemos de momentos onde nos sentimos ridículos.
  • Nos arrependemos de não ter dito “eu te amo” a uma pessoa que já se foi.
  • Nos arrependemos do tempo perdido, de não ter conquistado mais coisas.
  • Nos arrependemos de ter procrastinado, de comer muito doce, de não ter escrito aquele tão sonhado livro, de não ter lido todos os livros que planejamos ler, de não ter aprendido a jogar xadrez ou a falar uma outra língua.
  • Nos arrependemos de relacionamentos ruins, ou de erros cometidos em relacionamentos do passado.

Sim, nos arrependemos sim, e às vezes isso pode ter um grande peso em nossas vidas.

Mas por que nos arrependemos?

Porque gostaríamos de ter feito escolhas diferentes das que fizemos.

A gente pensa sempre que poderia ter feito algo melhor. Deveríamos ter escolhido um amor diferente, ou aquele emprego mais interessante, apesar de mais arriscado, deveríamos ter tido mais disciplina e acabamos não fazendo nenhuma dessas coisas.

Nos arrependemos de tudo aquilo que a gente não fez, e que faz parte de um passado que não pode ser mudado, porque comparamos com um “caminho ideal” que a gente acha que deveria ter seguido. Temos um ideal na nossa cabeça de como tudo teria sido caso tivéssemos feito escolhas diferentes.

O problema é que não podemos voltar no tempo e mudar as nossas escolhas. Então comparamos as escolhas imutáveis com um ideal de vida, com uma fantasia. O passado não pode ser mudado e o caminho que tomamos nunca será tão bom quanto aquele que idealizamos. As escolhas imutáveis que fizemos serão sempre piores e, vira e mexe, isso vaga em nossas mentes.

Mas por que isso acontece? Por que não conseguimos nos desfazer desses pensamentos?

Por que continuamos a pensar no arrependimento?

Eu percebi que tenho dificuldade em não pensar numa escolha ruim por conta do conflito que isso gera com a minha identidade pessoal.

Todos nós temos esse ideal de quem somos: pessoas do bem. Talvez sejamos inteligentes, competentes ou de bom coração. Fazemos as melhores escolhas possíveis, é claro, pois somos pessoas do bem. Mesmo que você tenha uma baixa autoestima, ainda assim você pensa que, no mínimo, é uma pessoa do bem.

Então quando alguém duvida disso – duvida da sua competência, te chama de mentiroso, traíra – isso machuca! A gente fica com raiva, na defensiva, e não consegue parar de pensar na ofensa.

E quando acreditamos ter cometido um erro, isso também é uma ofensa à nossa pessoa. Fizemos uma escolha ruim… por que não fomos capazes de ter sido uma pessoa melhor e feito uma escolha melhor? Essa escolha ruim entra em conflito com o ideal da pessoa de bem que pensamos ser.

O problema então passa e girar em nossas cabeças, sem solução. Não temos como resolver este problema. A escolha ruim não pode ser mudada e não conseguimos resolver o conflito com a nossa identidade pessoal.

Como nos livrarmos do arrependimento

Analisando por que nos arrependemos, e por que é tão difícil nos livrarmos desse arrependimento, podemos identificar duas causas:

  1. Comparamos escolhas do passado com um ideal.
  2. Temos um ideal sobre a nossa identidade que entra em conflito com uma escolha ruim.

Esses dois itens têm em comum o termo “ideal” – que não é a realidade e sim a forma como gostaríamos que a realidade fosse. São invenções que não nos ajudam em nada. Na verdade, estão é nos causando angústia.

Então a ação deve ser abrir mão desses ideais e aceitar a realidade.

A realidade dessas duas causas são:

  1. A escolha que fizemos no passado está feita e não podemos mudá-la. Na verdade, existe algo de bom nessa escolha se quisermos enxergá-la. O fato, em si, de termos escolhido algo, já é maravilhoso, assim como estar vivo, aprendendo com as nossas experiências. Podemos nos satisfazer com as nossas escolhas e aceitá-las como “boas o suficiente”, ao invés de pensar que poderiam ter sido perfeitas. Algumas escolhas serão maravilhosas, outras nem tanto – podemos aceitar toda essa gama de escolhas que fazemos.
  2. Nós, na verdade, não somos sempre “do bem”: às vezes somos bons, às vezes não, e às vezes não somos nem um nem outro. Cometemos erros, atos bondosos, temos compaixão, somos egoístas, honestos e desonestos. Somos tudo isso, e tomar uma decisão ruim não entra em conflito com essa identidade pessoal mais flexível (e realista) de nós mesmos. Faz parte dela.

Fácil falar, mas quando a gente se pega obsecado pelas escolhas do passado, podemos:

A) reconhecer que estamos caindo neste padrão,

B) reconhecer que existe algum ideal que estamos comparando às nossas escolhas e a nós próprios, e

C) abrir mão desses ideais perfeitos e aceitar uma realidade mais abrangente.

É um exercício constante, mas nos ajuda a não procurar a perfeição e a não rever constantemente as escolhas do passado. E sim, ao invés disso, encontrar satisfação no que já está feito e focar no que estamos fazendo agora.

Arrependimentos são parte da vida, a gente tendo ou não consciência deles. Mas olhando para as causas do arrependimento e aceitando uma realidade mais abrangente, podemos aprender a nos satisfazer com as nossas escolhas e a sermos mais felizes com o passado e com o presente.

E essa é uma escolha da qual você não ira se arrepender.

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foto: ~Zoe~

Leo Babauta...

...é o criador do blog ZenHabits.net, um dos blogs em inglês mais visitados na internet, com mais de 240.000 assinantes e ranqueado pela revista Time como um dos Top 25 Blogs por dois anos seguidos (2009 e 2010). Leia seus artigos ou saiba mais sobre o autor.

Comments

  1. Gostei, muito bom artigo

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