O que você quer fazer da sua vida?

Essa é uma pergunta que quase todo mundo já se fez. É também uma pergunta que, na minha opinião, ninguém deveria se dar ao trabalho de fazer.

“Eu não sei o que quero fazer da minha vida. Só sei que não é o que estou fazendo agora.”

Este foi o desabado de uma amiga minha. Ela tem uns 25 anos, é inteligente, esperta e trabalhadora. Mas ainda trabalha em empregos que não pagam muito acima do salário mínimo. Todo ano ela me diz que se matricula em universidades, mas nunca dá continuidade ao processo. Por quê? Porque ela não consegue responder a tal da pergunta. Ela não sabe o que quer fazer da vida.

Paixão evolui

Vejo muitas pessoas caindo na mesma armadilha. Elas acham que precisam tomar uma grande decisão antes de começarem a fazer alguma coisa, e também que precisam nascer com uma paixão. Pra piorar, elas também acreditam no mito de que combinar interesses pessoais com uma profissão seja algo fácil.

Quando as pessoas me perguntam o que eu pretendo estar fazendo daqui a cinco ou dez anos, normalmente digo que quero ser um empreendedor. “Ah! Qual vai ser o tipo de negócio?”. Bem, acredito eu que será algo relacionado ao trabalho que já venho fazendo, como o meu blog. Este ano, devo conseguir ganhar uns 10 mil dólares juntando o que faturei com o meu site e trabalhos de freelancer. Se eu me dedicar e focar nisso por quatro ou cinco anos, muito provavelmente poderei fazer desse negócio meu principal meio de sustento.

Mas, geralmente, eu não respondo isso. Pra ser sincero, não tenho a menor ideia do que estarei fazendo daqui a dez anos. Meu histórico sugere que, nos últimos anos, as minhas “paixões” têm evoluído consideravelmente.

Ben Casnocha, o CEO de 19 anos da Comcate, conta como sua paixão não começou com sacada alguma, no livro My Start Up Life. “A empresa não começou com um sonho. Não começou na garagem dos meu pais e também não começou com uma super inovação. Essas geralmente são as lembranças mais mencionadas por empreendedores. Mas não foi assim que aconteceu comigo.”

Conforme Ben vai contando sua história de CEO adolescente, fica claro que sua paixão evoluiu com o tempo. Ele tinha interesses em empreendedorismo e queria fazer a diferença. Então, a partir desses interesses, ele foi dando passos menores e se envolvendo cada vez mais. Não acredito que sua jornada tenha começado com a decisão do que ele queria fazer da vida.

Substitua decisão por curiosidade

Ao invés de tomar decisões definitivas em relação à sua carreira, tente ser mais curioso. Tenha curiosidade de como o mundo funciona. Perceba seus próprios interesses e encontre pequenas formas de exercer uma paixão, mesmo que isso não lhe traga dinheiro algum no início.

Essa conexão entre paixão e dinheiro não pode ser feita de forma precipitada. Geralmente, muitos interesses são descartados porque não dão lucro imediatamente e, por isso, acabam não sendo tão importantes quanto o trabalho que gera dinheiro.

Blogar é um ótimo exemplo. Conheço vários blogueiros que querem se tornar profissionais. Eles querem escolher um de seus assuntos preferidos e transformá-lo em uma fonte de renda. Mas blogar não é fácil. Até entre os sucessos mais rápidos que já vi nessa área, mais de um ano se passou até que os autores pudessem considerar seus blogs como algo além de um hobby. E isso foi graças ao talento para escrever, sorte e muito trabalho.

Paciência é um ingrediente fundamental no desenvolvimento de uma paixão. E mais importante ainda, você precisa estar aberto a possibilidades.

Gerar renda através de uma paixão não é um caminho reto

80% dos novos negócios dão errado nos primeiros cinco anos. Mas o mais interessante é que, dos 20% que sobrevivem, a maioria não obtém sucesso da maneira esperada.

Antes de lançar seu renomado site, Steve Pavlina acreditava que a maioria da sua renda viria com a venda de produtos e workshops. Mas, cinco anos depois, toda a sua renda vinha de anúncios e vendas de produtos e serviços de empresas afiliadas, algo que ele não havia previsto no seu plano de negócios.

Da mesma forma, eu não acredito que conseguir gerar renda através de uma paixão seja um caminho reto. Scott Adams começou sua trajetória com um diploma em economia e trabalhando em um banco. Hoje, ele é o cartunista de sucesso que criou o Dilbert.

Sete passos para desenvolver uma paixão… e fazê-la trabalhar pra você

Passo 1 – Reúna faíscas de curiosidade

Você ainda não tem uma paixão para te ajudar a tomar rumo? Não se preocupe com isso. A maioria das pessoas que conheço também não têm. E se você ainda tem menos de 30 anos, faz parte da maioria esmagadora de pessoas nessa mesma situação.

O primeiro passo é investir sua energia em pequenos desejos, aquelas faíscas de interesse que ainda não se transformaram em uma paixão. Ben Casnocha chama isso de Busca Aleatória. No meu caso, foi uma questão de trabalhar a minha intuição e usá-la para investir em coisas potencialmente interessantes pra mim.

Isso significa coisas como ler livros diferentes, participar de atividades diferentes e conhecer pessoas diferentes, o que te dará grandes chances de esbarrar em uma paixão com a qual possa trabalhar.

Passo 2 – Atice as chamas de interesse

Após se expor a muitas aleatoriedades, você precisa cultivar os sucessos. Construa em cima das pequenas faíscas de interesse que aparecerem na sua vida. Se você ler um livro sobre física e gostar do assunto, considere fazer algumas aulas de física. Se gosta de programação, envolva-se em um projeto de software.

Passo 3 – Corte as distrações

Cultivar desejos e explorar novas paixões exige tempo. Uma das razões pelas quais me interesso tanto por técnicas de produtividade é que, sem elas, eu não poderia explorar muitos dos meus interesses.

Se seus interesses forem genuínos, e se vale a pena explorá-los, eliminar o que não é essencial fica mais fácil. Distrações como televisão, excesso de internet e vídeo games não são difíceis de cortar. O mais difícil é conseguir utilizar o tempo que você acredita não ser seu.

Passo 4 – Vivendo minimamente

Se você tem um emprego pelo qual não morre de amores, trabalhe somente o necessário para mantê-lo. Paixões levam tempo para crescer e gerar renda, e eu não estou sugerindo que você se torne um artista morto de fome ou que faça grandes dívidas. Mas evite expandir sua vida de forma que seu salário vá todo embora enquanto você ainda nem está trabalhando com algo de que goste. Caso contrário, você vai ficar preso em uma vida confortável, mas sem encanto.

Leo Babauta, autor do ZenHabits, é um ótimo exemplo disso. Com seis filhos, trabalhos de freelancer e ainda um outro trabalho para ajudar no sustento da família, ele encontrou formas de cortar despesas e focar em sua paixão. Seu website tem se tornado cada vez mais popular que eu não me surpreenderia se o blog virasse uma forma estável de sustento em uns dois anos. Viva minimamente e evite ficar preso em uma vida confortável, mas ao mesmo tempo insatisfatória.

Passo 5 – Exerça uma paixão que crie valor

Se você tem uma habilidade que cria valor social, provavelmente vai conseguir fazer dinheiro através de qualquer meio, mas comercializar uma paixão que não esteja criando um valor real é basicamente impossível.

Você precisa transformar suas paixões em uma habilidade que atenda à uma necessidade humana. Algumas paixões são fáceis de adaptar. Um interesse por computadores poderia te permitir se transformar em um designer de software. Outras são mais difíceis. Uma paixão por poesia, por exemplo, seria mais difícil de adaptar a uma necessidade humana.

Passo 6 – Encontre uma forma de comercializar esse valor

Uma vez que você tenha a habilidade de criar um valor social, precisa transformá-lo em um processo que possa ser repetido, a fim de gerar receita. Como programador, você pode ser contratado pela Google, pode se tornar um freelancer ou empreendedor.

Monetizar valor não é fácil. Exige que você aprenda a comercializar, se vender, e encontrar formas de conectar as necessidades humanas. Se você quer ter um emprego ou seu próprio negócio, isso não faz diferença. Você é o CEO da sua vida e precisa saber como unir suas paixões com um serviço que possa atender as necessidades de outras pessoas.

Passo 7 – Volte ao Passo 1

Descrever esse processo em passos é algo ilusório. Implica na existência de um destino. Mas não há destino algum. O processo de seguir seus desejos, cultivar paixões transformando-as em habilidades valiosas, e finalmente gerando receita através delas, leva bastante tempo. Tenho algumas paixões que estão nos passos 1 e 2. O meu blog está no passo 6. Em dez anos, eu posso ter completado o trajeto com uma paixão completamente diferente.

Nem todas as paixões vão lhe permitir finalizar o Passo 6. Mas tão persistente quanto o mito de que você precisa decidir o que quer fazer da vida, é o mito de que você só pode ter uma paixão. Ao cultivar suas paixões, você vai descobrir que possui muitas opções, muitos possíveis trajetos que poderiam te levar a uma carreira agradável e gratificante. Não fique obsecado com uma tentativa fracassada e não desista.

O que você quer fazer da sua vida?

Sua vida não precisar seguir uma história previsível. Não precisa começar com um sonho, depois virar muito trabalho e finalizar com uma casa de quatro quartos. Ao invés disso, as coisas podem fazer uma curva e seguir outro caminho. Você não precisa saber a resposta final, só precisa dar o próximo passo.

foto: Creative Ignition

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Scott H Young...

...já escreveu mais de 950 artigos dedicados a uma simples ideia: como levar uma vida mais produtiva. Em seu blog, ele oferece dicas de como dobrar sua capacidade de leitura, aprender mais estudando menos, superar a procrastinação ou simplesmente entender melhor as pessoas- e a si próprio. Leia seus artigos ou saiba mais sobre o autor.

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