Como tirar boas notas sem precisar estudar

Eu nunca gostei muito de estudar antes de uma prova. Raramente estudo por mais de meia hora, mesmo para aquelas provas finais que vão valer praticamente metade da minha média. E quando eu estudo, geralmente dou uma lida rápida na matéria e respondo a algumas questões práticas. A maioria das pessoas estuda se entupindo do máximo de informação possível até o último minuto antes do teste, enquanto eu considero o estudo um leve alongamento antes da corrida.

Muitos podem achar que tenho péssimos hábitos de estudo, mas sempre me dei bem na escola. Durante o segundo grau, estive sempre no topo da classe com notas altas e honra ao mérito. Na faculdade, eu consegui notas altíssimas em matérias com alto grau de reprovação, e ainda tirei a melhor nota em uma prova nacional de Química que foi dada de surpresa.

É muito fácil olhar para os meus sucessos e aparente falta de esforço e concluir que eles são devidos a um talento nato, impossível de reproduzir. Isso é besteira. Acredito que, tanto eu quanto qualquer outra pessoa que seja capaz de produzir esses resultados, simplesmente possui uma estratégia mais eficaz para aprender novas matérias. Com o meu sistema de aprendizagem, você só precisa ouvir ou ler algo uma vez para aprender. E esse sistema pode ser aprendido.

Teias e Caixas

Vou chamar o sistema que uso para aprender de Aprendizado Holístico. Mas para que você aprecie de verdade esse tipo de aprendizado, primeiro precisa entender o seu oposto — o Aprendizado Particionado. Praticamente todo aprendizado acontece entre o completamente holístico e o completamente particionado. Apesar de ser raro alguém utilizar um dos dois extremos, as pessoas mais inclinadas a aprender em partições precisam meter a cara e estudar por horas, enquanto aquelas que preferem o aprendizado holístico geralmente conseguem tirar de letra até os cursos com muitas matérias.

Pessoas que aprendem em partições tentam organizar suas mentes como gavetas. Quando aprendem uma nova equação química, elas tentam arquivar a informação. Na melhor das hipóteses, elas irão arquivá-la próxima a outras equações químicas, para que tenham fácil acesso às equações na hora do teste. Aprendizes do estilo particionado criam gavetas diferentes para Ciências, Matemática, História e Artes, colocando tudo o que sabem em pequenas caixas.

O aprendizado holístico tem uma outra abordagem. Aprender holisticamente não é tentar se lembrar de informações usando a repetição. Os aprendizes do estilo holístico organizam suas mentes como uma teia de aranha. Cada pedaço de informação é um ponto. Esse ponto é então conscientemente relacionado a vários outros pontos da teia. Não existem caixas nesse tipo de aprendizado. Ciências se torna Literatura, que se torna Economia. A organização por assunto pode ajudar na hora da aula, mas um aprendiz holístico nunca vê as coisas dentro de caixas.

Quando chega a hora do teste (ou de colocar o que aprendeu em prática) o aprendiz do estilo particionado precisa ter martelado as informações forte o suficiente em sua mente para que as respostas surjam na hora da prova. O aprendiz do estilo holístico faz o oposto. Ele só precisa começar em um ponto específico da teia e usá-la para navegar e encontrar as informações associadas de que precisa.

Para a prova surpresa de Química em que tirei primeiro lugar, eu não sabia nem metade da matéria que caiu, mas porque a minha teia estava fortemente entrelaçada, não tive dificuldade de deduzir o conteúdo que estava faltando. Ou seja, em um teste de múltiplas escolhas, do qual eu só conseguia entender um terço das questões, ainda assim fui capaz de eliminar respostas incorretas. Se dar bem em um teste de cujo tema você só conhece uma parte pode soar impossível, mas não para um aprendiz holístico.

Aprendizado particionado é um processo que beira a loucura. Uma estratégia parecida seria se os usuários da internet não criassem links para outras páginas e sites. Para encontrar algo, você teria que ficar digitando endereços no navegador na esperança de que ele aparecesse. Estudar, para esse tipo de aprendiz, é como configurar milhares de domínios que apontam para a mesma informação, para que, talvez, você chegue ao local certo na base da adivinhação. Isso não só é completamente ineficiente mas também leva horas para ficar pronto.

Muito poucas pessoas são 100% aprendizes particionados. A maioria das pessoas gerencia teias de informação holisticamente até um certo nível. Mas, infelizmente, suas teias simplesmente não são interligadas o suficiente. Cada assunto geralmente possui uma teia distinta e cada informação possui apenas uma ou duas associações. É como navegar em uma internet cujas páginas possuem apenas um ou dois links externos. Isso é possível, mas está longe de ser eficiente.

Se você observar a estrutura do seu cérebro, vai ficar óbvio por que o aprendizado particionado, organizado como o sistema de pastas de um computador, não funciona. Seu próprio cérebro é uma teia de neurônios. Criar centenas de associações entre ideias significa que, não importa onde você inicie seu raciocínio, eventualmente irá chegar ao pedaço de informação de que precisa. Se uma estrada está fechada por algum motivo, você pode pegar uma das outras centenas de ruas para chegar no mesmo local.

Maximizando seu Aprendizado Holístico

Entender o aprendizado holístico é uma coisa, mas colocá-lo em prática é outra. Eu venho aprendendo e aperfeiçoando o meu aprendizado holístico há tanto tempo que a minha teia já está muito bem interconectada. Mas se a sua teia ainda não está bem interlaçada, então a melhor maneira de melhorar a sua habilidade de aprender holisticamente é começando agora.

Aqui estão algumas sugestões de como você pode interlinkar melhor a sua teia:

1) Faça Perguntas. Quando você aprende algo, pode fazer associações através de perguntas. Como essa informação se relaciona com o que eu venho estudando? Ela está relacionada a outras coisas que eu já aprendi, outros assuntos, histórias ou observações?

Seja criativo e tente encontrar vários pontos de referência para cada ideia que aprender. Procure descobrir as similaridades entre as coisas e por que elas são o que são. Conforme isso se torna um hábito, você vai descobrir que automaticamente se lembra de informações porque elas se encaixam na sua teia de compreensão. Pergunte a si próprio, após ouvir algo, se você pescou aquilo. Caso contrário, continue se questionando mais sobre a informação e como ela deve se encaixar.

2) Visualize e Diagrame. Uma das melhores formas de começar o aprendizado holístico é desenhar um diagrama que associe as informações que você aprendeu. Melhor que fazer anotações na sala de aula, é desenhar uma imagem de como o que você aprendeu se relaciona a qualquer outra coisa que você já tenha aprendido. Quando se tornar bom nisso, você conseguirá visualizar o diagrama sem ter que desenhá-lo. Mas desenhar o diagrama é uma ótima dica para pegar a prática.

Quando eu tento entender economia, sempre me ajuda visualizar a relação entre diferentes fatores. Eu vejo ciclos de dinheiro, PIB ou níveis de preços como uma estrutura que combina todos os diferentes elementos. Se você não conseguir criar imediatamente uma imagem vívida da informação, então desenhe-a primeiro.

3) Use Metáforas. Qualquer coisa que você esteja aprendendo deve ser imediatamente traduzido em uma metáfora que você já tenha compreendido. Ao ler O Príncipe, de Niccolo Machiavelli, eu entendi melhor os exemplos dados sobre estadismo e guerra, fazendo uma relação direta com temas que eu já dominava, como áreas de negócios e relações sociais.

Enquanto a visualização cria teias apertadas de ideias relacionadas a um assunto, metáforas criam teias mais amplas de ideias completamente diferentes. Você pode não perceber como aquele artigo sobre saúde que você leu há duas semanas possui relação com matemática, mas através de metáforas você tem uma enorme reserva de informação disponível para quando precisar.

4) Sinta. Outra técnica que uso para melhorar meu aprendizado holístico é “sentir as ideias”. Essa é um pouco mais difícil de explicar, mas a ideia básica é que, ao invés de associar uma ideia a uma imagem ou metáfora, você deve associá-la a um sentimento. Eu sou um aprendiz visual, por isso essa técnica não é eficiente pra mim quando preciso absorver muita informação, mas é muito útil para informações difíceis de associar.

Eu usei esse método para me lembrar do processo que encontra o determinante de uma matriz. Os nerds da matemática provavelmente já sabem que o determinante de uma matriz 2×2 é basicamente a diagonal esquerda menos a diagonal direita. Eu consegui associar essa informação em minha teia através do sentimento de imaginar como seria mover minhas mãos por cada uma das diagonais da matriz. Este é um exemplo bem simplificado, mas sentir ideias pode ser muito útil.

5) Quando em dúvida, faça um link ou uma marca. Perguntas, visualizações, metáforas e sentimentos podem te ajudar com aproximadamente 90% da informação que você precisa absorver. Eles são os métodos mais eficazes de se conectar ideias. Mas se você precisar memorizar algumas informações que não consegue entender ou relacionar, a saída é o sistema de link.

Explicar esses sistemas de memorização está fora do objetivo desse artigo, mas a ideia básica do sistema de link é criar uma imagem vívida relacionando duas informações que parecem não ter relação alguma, para que uma conexão entre as duas aconteça à força. O sistema de marcação vai além, e cria um sistema simples de fonética para armazenar números e datas.

Estradas de Terra e Rodovias

Uma teia eficiente deve interconectar muito bem ideias de assuntos similares, mas também precisa ter links que se estendem entre ideias completamente diferentes. Eu gosto de pensar nessas duas abordagens como a comparação entre estradas de terra e rodovias. Você precisa de várias estradas baratas de terra para interconectar áreas próximas, e algumas rodovias para conectar cidades distantes.

Quando eu estava aprendendo História, criava estradas de terra conectando um período específico a seus aspectos e cultura. Fiz links entre as conquistas artísticas da Dinastia Sung com sua situação política. Mas também criei rodovias, e comparei a China daquela época com a Índia e a situação política nos EUA.

Algumas pessoas constroem muitas estradas de terra mas se esquecem das rodovias. Elas compreendem bem um determinado assunto, mas não conseguem relacionar esse assunto fora da sala de aula. Hamlet é uma das minhas obras favoritas, pois meu professor fez um ótimo trabalho ao criar rodovias. A gente discutia como os aspectos de Hamlet se relacionavam a nossas próprias vidas, à política e outras áreas completamente diferentes. Como resultado, eu me lembro muito mais daquela obra do que de qualquer outro livro que eu tenha estudado.

O fim dos estudos

Estudar deveria ser como um alongamento antes da grande corrida, e não o momento de entrar em forma. Menti um pouco quando criei o título desse artigo. Eu estudo, mas não pelos mesmos motivos da maioria das pessoas. Eu estudo para me certificar de que a minha teia continue funcionando, não para criá-la. E quando estudo, é só uma revisão rápida, nunca aquela madrugada em claro.

Você pode ler esse artigo e pensar que se dar ao trabalho de desenhar diagramas e ficar pensando em metáforas para praticar o aprendizado holístico vai levar muito tempo, mas eu não acredito nisso. Já poupei muito tempo usando essas técnicas e o estudo acabou virando apenas um pequeno investimento em meio a todo o meu trabalho diário. Pratique o aprendizado holístico e você poderá passar menos tempo se entupindo de informação e mais tempo estudando de verdade.

foto: thebarrowboy

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Scott H Young...

...já escreveu mais de 950 artigos dedicados a uma simples ideia: como levar uma vida mais produtiva. Em seu blog, ele oferece dicas de como dobrar sua capacidade de leitura, aprender mais estudando menos, superar a procrastinação ou simplesmente entender melhor as pessoas- e a si próprio. Leia seus artigos ou saiba mais sobre o autor.

Comments

  1. Muito, mas muito bom. Eu meio que já utilizava essa técnica, mas sem ter consciência. Agora que entendi direito como funciona, com certeza poderei aplicá-la de modo mais eficiente e me livrar de uma vez por todas da ”decoreba”. Valeu!

  2. Genial, adorei, vou começar a utilizar isso agora mesmo, muito obrigado por compartilhar. Eu só não consegui entender uma coisa: ”1) Faça Perguntas.”
    Você poderia me explicar melhor esse item, dar um exemplo de como relacionar as informações por perguntas. Obrigado!

    • Oi Jeferson! Que bom que você gostou e vai incorporar essas sugestões no seu dia a dia!

      Sobre a sua questão, eu acho que o que o Scott quer dizer com “Faça perguntas” é que nesse processo (de se perguntar se algo pode ou não ter alguma conexão com outra coisa qualquer), a gente acaba descobrindo caminhos novos para relacionar duas idéias, por exemplo, que de outra maneira não chegariam a sua linha de pensamento.

      Acho que em tudo na vida, fazer perguntas, exercitar a curiosidade, sempre ajudam na descoberta de coisas que do contrario não seriam exploradas.

      Espero ter contribuído um pouco em esclarecer esta questão.

      Obrigada por ser um leitor Urbanteka!

      Simone Guimarães

  3. Jeferson, no meu entendimento quando ele diz “faça perguntas” é para se perguntar o qe o conteudo qe eu estou aprendendo se relaciona com o que já sabemos.

  4. Ana Carvalho says:

    Me identifiquei com a parte dos links e das marcas. Sempre fiz isso, mesmo que sem querer. Associo imagens e palavras foneticamente parecidas para estudar praticamente todas as matérias. Associo a coisas engraçadas, geralmente, elas me ajudam a lembrar mais rápido. Ajuda demais. Já não precisava estudar muito só fazendo isso, as coisas vem naturalmente. Sei lá. Eu não consigo mais não fazer associações assim. Vou começar a tentar testar as outras dicas. Esse texto foi realmente muito interessante.

  5. Quero saber como tirar boas notas em história sou pescima so tiro nota baixa!!!Me ajudem por favor,a prova vai ser sobre o Getúlio Vargas,a capoeira e essas coisas.

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