O Paradoxo do Crescimento: Hábitos ajudam ou atrapalham o aprendizado?

Muito já foi dito sobre a importância dos hábitos. Ao programar rituais de ação consistentes, o comportamento se torna automático. Comportamento automático significa que você precisa de muito menos autodisciplina para finalizar um projeto do que alguém que trabalha de uma forma casual.

Hábitos são formados através da repetição. Ao tornar seus horários consistentes, assim como os desencadeadores de ações e suas regras de ouro, você reduz a sobrecarga mental relacionada à execução de tarefas. O ritmo consistente do seu comportamento faz com que seguir aquele padrão se torne mais fácil.

Mas aí surge a seguinte questão: o aprendizado não pode ser otimizado através do ritmo. A prática sugere justamente o oposto, que é necessário quebrar a rotina para incentivar o crescimento. Muita consistência inevitavelmente leva à estagnação, onde as fraquezas se solidificam e o aperfeiçoamento se torna mais difícil.

Por isso o dilema. Queremos maximizar o crescimento através do rompimento dos momentos de estagnação. No entanto, também precisamos de estabilidade e consistência para que possamos manter nossa dedicação.

Resolvendo o dilema

Eu já pensei muito sobre essa questão, pois parece que dou de cara com esse dilema com frequência no que diz respeito à minha escrita. Por um lado, ter o hábito de escrever semanalmente me permite garantir que estou dedicando um tempo consistente a isso. Sempre que deixo o compromisso de lado, escrever se torna bem mais difícil. Por outro lado, quero aperfeiçoar a minha escrita, o que provavelmente não acontecerá se eu continuar escrevendo sempre nas mesmas condições, semana após semana.

Qual das duas técnicas deve ter prioridade? Devo comprometer a consistência semanal da minha escrita para que eu possa me aperfeiçoar? Ou devo continuar escrevendo com a mesma frequência e tentar crescer em outras áreas? Não tenho uma resposta fácil para dar.

Isso também parece ser um problema com o qual muitas pessoas precisam lidar em seus trabalhos. O trabalho pelo qual você recebe um salário não te estimula a se aperfeiçoar. Seu chefe quer que você realize o trabalho mais fácil e rotineiro pra você, provavelmente porque você já é bom nisso. No entanto, é justamente o trabalho no qual você ainda não é um expert que irá ajudá-lo a dominar as suas habilidades.

Possíveis Soluções

Eu considerei algumas abordagens que podem funcionar na resolução desse dilema.

1. Projetos de Aprendizagem

Um projeto geralmente dura meses, não dias ou horas. Dessa forma, pode ser uma boa estratégia ter sempre um projeto voltado para o aprendizado. Mas faça com que esse projeto seja longo o suficiente para que você consiga construir os hábitos para mantê-lo ativo.

Eu venho fazendo isso no meu próprio trabalho. Ano passado, eu fiz o Desafio MIT que, apesar de estar relacionado à ciência da computação, também foi um projeto que teve como objetivo melhorar a minha escrita, ao me dar um melhor entendimento dos tópicos de aprendizagem sobre os quais escrevo. E já estou trabalhando em um outro projeto dessa mesma magnitude com o objetivo de gerar o mesmo efeito.

Um ponto fraco desse esforço extra é que projetos, em oposição a seções práticas com foco limitado, dão bastante trabalho (o que é necessário) mas não estimulam tanto o crescimento. Criar projetos que possuam consistência e ao mesmo tempo incentivem o aperfeiçoamento nem sempre é fácil.

2. Reservar horas de foco profundo com propósitos diversificados

Outra estratégia, que eu vi ser implementada pelo Cal Newport, é simplesmente reservar blocos de tempo para trabalho com foco profundo. Na prática, isso poderia significar separar 2 horas todas as manhãs para, de forma deliberada, aperfeiçoar suas habilidades. Dessa forma, você se beneficia da consistência do hábito da concentração profunda, mas o conteúdo do hábito pode trocar sempre e, assim, você não fica estagnado. Estará sempre em crescimento.

3. Mudança de ambiente

Outra ideia é, ao invés de mudar o que você está fazendo, mudar como e onde você está fazendo. Desta forma, a troca de ambiente vai estimular não só a mudança de hábitos, mas também o aprendizado, sem a perda da consistência.

Como escritor, isso poderia significar eu fazer um esforço para escrever artigos para um outro site, escrever um livro, ou começar a trabalhar em parceria com um editor. Essa mudança de ambiente, não somente relacionada ao local físico, criaria uma mudança externa, o que faria com que eu precisasse ter menos força de vontade para completar o projeto, e minhas habilidades não estagnariam.

Trocar de trabalho, de empresa, área ou cidade também são possíveis trocas de ambiente que poderiam gerar esse efeito.

O ponto fraco dessa ideia é que, às vezes, o ambiente do qual você precisa para dar um empurrão no seu crescimento e aperfeiçoamento não está disponível ou não é viável.


foto: sourabhj

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Scott H Young...

...já escreveu mais de 950 artigos dedicados a uma simples ideia: como levar uma vida mais produtiva. Em seu blog, ele oferece dicas de como dobrar sua capacidade de leitura, aprender mais estudando menos, superar a procrastinação ou simplesmente entender melhor as pessoas- e a si próprio. Leia seus artigos ou saiba mais sobre o autor.

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