O lema do preguiçoso: faça cada vez menos

Quem não sente preguiça de vez em quando? Claro que algumas pessoas sentem mais preguiça do que outras. Minha mãe, que sempre trabalhou duro, me disse que até ela fica com preguiça às vezes, mas continua trabalhando do mesmo jeito. Eu disse a ela, “Mãe, isso não é preguiça! Isso é o oposto da preguiça!”

A preguiça é geralmente vista como uma coisa ruim, mas eu discordo.

Preguiça é muito bom.

Veja por que:

  1. A preguiça significa que seu corpo e mente estão cansados e querem descansar. Isso é sinal de que você realmente precisa parar um pouco. Quando você ignora esses sinais, acaba se sentindo exausto. Então descanse, sem culpa!
  2. A preguiça significa que você não quer trabalhar muito, o que nos leva a descobrir maneiras de trabalhar menos. Praticamente todos os avanços tecnológicos surgem da preguiça: dirigimos carros ao invés de andar porque temos preguiça de andar, usamos máquinas de lavar roupas porque lavar na mão dá preguiça, usamos o computador pra escrever porque escrever à mão dá trabalho. É claro que a dependência das máquinas não é uma coisa boa, mas usar a preguiça pra descobrir formas melhores de se fazer as coisas é super positivo.
  3. Pessoas preguiçosas não começam guerras. Quem quer se dar ao trabalho de encarar uma guerra? Ficar na paz e na amizade é muito mais fácil.

Faça menos e seja produtivo

Parece contraditório dizer que fazer menos pode significar ser mais produtivo. No entanto, se a sua definição de produtividade é concluir mais tarefas ou fazer mais coisas, então neste caso fazer menos não resultará em “produtividade”.

Mas se ao invés disso você definir produtividade como uma forma de potencializar suas ações, o tempo que você passa trabalhando (ou fazendo qualquer coisa), de ser o mais efetivo possível, então fazer menos é o melhor jeito de ser produtivo.

Por exemplo: eu posso trabalhar o dia inteiro fazendo mil coisas e concretizar muito pouco, principalmente em se tratando de resultados duradouros. Ou, posso fazer uma ou duas tarefas de 1 hora cada, mas que serão essenciais na obtenção de resultados significativos. No segundo exemplo, você fez menos, mas o tempo gasto valeu mais a pena.

Vejamos o exemplo de um blogueiro: eu posso passar um dia inteiro escrevendo vários posts sem muita importância, ou posso me dedicar durante uma hora e meia e escrever um post apenas, mas que vai ter um impacto significativo na vida dos meus leitores. Eu fiz menos, mas as minhas palavras e meu tempo geraram muito mais valor.

Se de vez em quando você fica com preguiça, assim como eu, então a escolha é simples – faça menos.

Mas faça menos com sabedoria: faça com que cada ação tenha valor. Envie menos e-mails, mas que sejam importantes. Escreva menos palavras, mas faça com que cada uma delas seja essencial. Considere de verdade o impacto de cada atitude, e veja se você consegue eliminar algumas tarefas. Veja se consegue causar um grande impacto fazendo menos.

Isso não significa que menos é mais. Significa que menos é melhor.

Faça menos de tudo

Fazer menos significa muito mais do que ser produtivo. É um estilo de vida que pode ter um impacto real em tudo o que fazemos:

  1. Compre menos. Se você comprar menos coisas, gastar menos dinheiro, você terá menos, ficará com menos dívidas — e numa situação financeira melhor — terá menos complicações, porém mais tempo para as coisas realmente importantes.
  2. Faça menos coisas. Ao invés de correr por aí fazendo um monte de coisas pequenas, desacelere. Faça menos. Viva uma vida mais calma e pacífica. Tenha satisfação em sentar para não fazer nada. Relaxe um pouco. Sorria e seja feliz.
  3. Gerencie menos. Se você está numa posição de autoridade na vida ou no trabalho, sendo gerente, executivo(a) ou se você é um pai ou uma mãe, quanto menos você fizer, melhor. Muita gente gerencia ou manda demais. Isso proporciona a esses funcionários ou filhos muito pouca liberdade, espaço para a criatividade e para aprenderem por conta própria, para terem sucesso ou para evoluírem com os próprios erros. Quanto menos você fizer, mais os outros vão descobrir como fazer as coisas. Faça pequenas coisas para guiar e ensinar, mas na maioria das vezes deixe que sigam seu próprio caminho.
  4. Comunique-se menos. Falar menos, gritar menos, discutir menos, fazer menos ligações, enviar menos e-mails, mensagens e posts. Ao mesmo tempo em que acho que a comunicação é extremamente importante, e é um dos segredos para um bom relacionamento, eu também acho que fazemos isso demais. Principalmente porque a maior parte dessa comunicação toda acaba virando pessoas falando pelos cotovelos e ouvindo muito pouco. É só barulho. Deixe o silêncio fazer parte da sua vida. Quando se comunicar, que valha a pena, seja sincero, e mais do que falar, ouça. Faça com que cada e-mail seja significativo. Só envie mensagem se for necessário. Passe menos tempo no Twitter, no Facebook, no celular, e mais tempo com humanos, mais tempo com você mesmo e mais tempo vivendo o presente.
  5. Reclame e critique menos. Não vou discursar sobre como essas duas coisas podem deprimir você e os que estão à sua volta. Saiba apenas que se você fizer menos dessas duas coisas, sua vida será melhor. Ao invés disso, realize mais atos de bondade, compaixão, compreensão, aceitação e amor.
  6. Planeje menos, preocupe-se menos e pense menos no futuro. Passe mais tempo no presente. Nós nos preocupamos muito, e isso não nos faz bem. Pensamos em coisas que não aconteceram ao invés de pensar no que está acontecendo nesse exato momento. E ao mesmo tempo em que fazer alguns planos é algo necessário, fazer planos demais é perda de tempo. Não há como prever o futuro, e é inútil tentar controlar cada detalhe que vai acontecer. Aprenda a se deixar levar, procure oportunidades, encontre o caminho natural das coisas e faça o que é necessário no momento. Você não pode controlar os resultados, mas se aprender a trabalhar com mais fluidez, ao invés de seguir estritamente o que foi planejado, você pode obter bons resultados.
  7. Julgue menos e tenha menos expectativas. Aceitação é algo que estou trabalhando em mim cada vez mais. Isso significa que tenho que ser menos crítico e parar de ter expectativas em relação a tudo e a todos. Se você não cria expectativas e não julga as coisas, você consegue aceitá-las. E a aceitação leva à paz de espírito, leva à felicidade. Então quando você se pegar julgando, pense “Faça menos julgamentos”. Quando se pegar esperando que alguém seja de determinada maneira, pense “Tenha menos expectativas”. Assim as pessoas não te desapontarão, porque você vai aprender a aceitá-las como elas são e saber que elas já são perfeitas, do jeito que são.

Como fazer menos

  • Deixe-se levar. Imagine o esforço de nadar contra a correnteza comparado a se deixar levar por ela. Se você seguir o fluxo das coisas, ao invés de ir contra, fará menos e com menos esforço.
  • Não force as coisas. Um erro comum: tentar demais, forçar algo que não quer acontecer. Gasta-se muito tempo e energia para forçar as pessoas a fazerem o que não querem. Em vez disso, encontre uma maneira mais suave, pense na água, que flui ao redor das coisas ao invés de tentar forçar caminho através delas.
  • Encontre os pontos de pressão. Nas artes marciais, em vez de usar força máxima, você é instruído a encontrar os pontos do corpo humano onde é possível aplicar menos força e obter o maior efeito, seja para causar dor, desequilíbrio ou algum outro resultado. Bem, eu não aconselho ninguém a causar dor, mas a ideia dos pontos de pressão é ótima: se você consegue identificar os pequenos pontos onde uma atitude pequena pode fazer muita diferença, pode ir longe; você dominou a filosofia do Fazer Menos.
  • Deixe os outros fazerem. Dê aos outros espaço e liberdade para agir, para criar, inventar, aprender, trabalhar, para fazer por conta própria. Menos tempo e esforço gastos tentando controlar os outros significa fazer menos e deixar que os outros façam mais. Isso significa se desapegar do controle, mas é uma coisa boa. As outras pessoas também possuem criatividade, imaginação, dedicação e boas ideias.
  • Deixe as coisas acontecerem. Frequentemente nossas ações interferem em eventos que iriam acontecer sem elas. Em outras palavras, se não tivéssemos feito nada, as coisas iriam acontecer da mesma maneira. Então dê espaço e deixe que aconteçam sozinhas, sem a nossa interferência.


foto: Ben Saren

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Leo Babauta...

...é o criador do blog ZenHabits.net, um dos blogs em inglês mais visitados na internet, com mais de 240.000 assinantes e ranqueado pela revista Time como um dos Top 25 Blogs por dois anos seguidos (2009 e 2010). Leia seus artigos ou saiba mais sobre o autor.

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