Como se apaixonar pela procrastinação

Muitos especialistas em gerenciamento de tempo classificam a procrastinação como algo puramente negativo, como um “ladrão de tempo”. Mas a procrastinação nem sempre deve ser classificada como uma experiência negativa. Existe, sim, um lado positivo na procrastinação, o que pode até lhe estimular a procrastinar com mais frequência.

Quer se apaixonar por ela?

O pelotão anti-procrastinação

Um dos motivos pelos quais a procrastinação tem uma fama tão ruim é por ser geralmente contrária aos valores corporativos. Eles se baseiam fortemente na ideia de que a otimização máxima do tempo seja crucial para que os objetivos sejam atingidos. Quando funcionários procrastinam em suas tarefas e projetos, isso pode gerar atrasos que ferem a imagem da empresa.

Os gerentes geralmente são responsabilizados por esses atrasos e, como a remuneração deles frequentemente está ligada aos prazos corporativos, os problemas de procrastinação de suas equipes podem impactar diretamente em seus rendimentos. Isso incentiva os gerentes a terem a procrastinação como um inimigo e a fazerem o que for preciso para evitá-la.

Consequentemente, você verá que livros anti-procrastinação são escritos por gerentes ou ex-gerentes corporativos. Eu li muitos livros sobre isso e é difícil lembrar de um que não tenha sido escrito por alguém com experiência gerencial.

A anti-procrastinação, no entanto, é uma mera perspectiva criada no mundo corporativo. Neste artigo eu gostaria de apresentar uma perspectiva diferente. Ao invés de favorecer o que é melhor para o gerente, para a equipe ou para a empresa, vamos considerar o que é de fato melhor para o indivíduo.

O que você faz quando procrastina?

Quando o fim do prazo se aproxima e você parece estar adiando o que precisa ser feito, o que você costuma fazer?

Algumas pessoas parecem congelar nessa situação. Elas sentem vontade de fazer algumas coisas, mas se sentem culpadas em fazê-las quando deveriam estar fazendo o que precisa ser feito, então não fazem nada.

Se você conseguisse deixar a culpa de lado e agisse conforme a sua vontade, o que você faria no lugar de suas tarefas? E quais seriam as consequências dessa atitude a longo prazo?

Talvez as consequências da procrastinação não sejam tão negativas quanto parecem. A pressão do momento acaba distorcendo sua perspectiva, da mesma forma que uma pressão física pode distorcer as lentes de um óculos.

Quando eu estava no Ensino Médio, costumava procrastinar em certas tarefas da escola, quase sempre esperando até a noite antes da entrega pra começar a fazê-las. Olhando pra trás, isso não me causou mal algum a longo prazo. O que eu fazia enquanto estava procrastinando nas tarefas da escola? Eu passava muitas horas jogando videogames. Também lia livros sobre programação e desenvolvi pequenos programas no meu Atari 800, e depois no computador.

E isso de fato foi extremamente benéfico. Muitos tempo depois eu abri uma empresa de desenvolvimento de jogos que administrei por mais de 10 anos. Graças à minha experiência anterior, alguns dos meus jogos foram premiados. Então, quando parecia que eu estava procrastinando nas coisas importantes da escola, na verdade eu estava adiando o que era menos importante pra mim, para poder passar mais tempo fazendo o que realmente me interessava.

Anos mais tarde eu me peguei procrastinando na programação de um projeto para ler livros de desenvolvimento pessoal, ouvir programas de áudio e escrever artigos. A minha ocupação atual de blogueiro na verdade surgiu através da procrastinação.  Eu sempre adiava algo aparentemente mais importante para ter tempo de escrever um novo artigo.

Eu também empurrava com a barriga alguns projetos para auxiliar outros desenvolvedores de jogos que queriam largar seus empregos corporativos para abrir seus próprios negócios. O engraçado é que mais tarde eu acabei licenciando e lançando jogos de alguns desses desenvolvedores que eu ajudei.

Em retrospecto, esse padrão de procrastinação tem me beneficiado muitíssimo a longo prazo, embora no momento da procrastinação isso pareça um hábito ruim que eu deveria evitar e pelo qual deveria me sentir culpado. Essa sensação me causou estresse e várias noites inteiras em claro, mas no fim das contas, toda essa procrastinação acabou me fazendo mais bem do que mal.

O quanto a procrastinação está realmente te prejudicando?

Quando você sentir que está procrastinando, observe mais atentamente o que está acontecendo. A sua procrastinação está realmente te prejudicando? Ou você está fazendo tempestade em copo d’água?

Mesmo quando algo parece muito ruim no momento, anos depois você pode olhar pra trás e perceber que não foi grande coisa. E talvez isso até tenha te ajudado a seguir num caminho melhor.

Talvez sua procrastinação tenha te ajudado a escapar da faculdade errada. Afinal, como você pretende fazer um curso alinhado à sua paixão e talento se, quando a coisa apertou, você decidiu fazer outra coisa ao invés de estudar e se dedicar para passar no vestibular? Talvez um problema maior estivesse mais à frente, e a procrastinação na verdade te ajudou a escapar disso.

Outra possibilidade: não era o momento certo. Talvez sua procrastinação estivesse te dizendo que não era o momento certo de prestar vestibular. Talvez você devesse viajar um pouco pelo mundo. Talvez você não precisasse cursar uma faculdade. Talvez você devesse mergulhar de cabeça e ir fazer o que realmente gosta. E se a decisão de entrar numa faculdade foi apenas uma tática baseada no medo, para adiar o que você realmente quer fazer?

O benefício da retrospectiva

Mesmo quando sua procrastinação parece ser um hábito totalmente destrutivo, podem haver benefícios escondidos difíceis de enxergar na hora.

Quando eu fui expulso da Universidade da Califórnia em Berkeley (UC Berkeley) depois de 3 semestres — acho que no último semestre minha nota começou com um zero antes da vírgula — foi um golpe duro pra mim naquele momento. Pior ainda, eu tinha acabado de sair da prisão por assalto à mão armada e estava aguardando meu julgamento. Esse foi um dos piores momentos da minha vida. Eu tinha apenas 19 anos na época e vivia me martirizando pelos erros idiotas que cometia. Eu achava que era um cara razoavelmente inteligente, mas aparentemente minhas escolhas haviam sido incrivelmente burras. Eu procrastinava o máximo que podia nos estudos pra poder encher a cara, ir a festas, jogar poker e praticar furtos.

A princípio meu plano era me formar em Ciência da Computação e quem sabe seguir adiante e conseguir um Ph.D. Afinal, eu poderia conseguir um bom emprego como programador em algum lugar. Esse era o caminho que eu deveria seguir.

Porém, em retrospecto, o caminho aparentemente maluco que eu segui acabou sendo tremendamente valioso. Eu era muito estressado na época, mas hoje eu sou imensamente grato por não ter continuado com o plano original de me formar na UC Berkeley. Se eu tivesse seguido essa trajetória, hoje eu poderia estar trabalhando como programador para o governo ou para alguma empresa. Isso não seria necessariamente um resultado horrível, mas eu preferiria muito mais estar onde estou hoje do que onde eu esperava que essa trajetória me levasse. Acho que a longo prazo meu plano inicial teria sido um caminho difícil pra mim.

Ao invés disso, minha procrastinação me colocou numa posição onde eu tive que aprender lições totalmente diferentes.

(1) Medo. Por causa dos furtos que eu fazia, me forcei a encarar constantemente meu medo e a controlar minha adrenalina, então pude manter o equilíbrio e a compostura mesmo assumindo grandes riscos. Desde então isso tem sido extremamente benéfico, principalmente nos negócios. E realmente adoro ser capaz de olhar para algo que me assusta e me motivar a encarar de frente sem paralisar de medo. É muito pouco provável que eu desse palestras hoje em dia se eu não tivesse tido essas lições de coragem através dos furtos. Mas veja, não estou aconselhando que você use esse mesmo método. Não seja idiota de seguir este caminho. Existem muitas outras formas, bem mais produtivas e positivas, de encarar seus medos e aprender a manter o equilíbrio em situações de risco. Seja criativo.

(2) Pressão social. Aprendi a lidar com ela. Quando eu vivi esse momento horrível na minha vida, todo mundo que me conhecia parecia profundamente decepcionado comigo. Fui muito criticado, e com razão. Mas pra conseguir progredir e reverter a situação, tive que aprender a receber críticas nada construtivas, decidir por conta própria o que era melhor pra mim e tomar atitudes sem o benefício do apoio social. Caso contrário eu ficaria empacado no mesmo lugar, sempre na defensiva e sentindo pena de mim mesmo. Essa habilidade me ajuda até hoje. Por exemplo, eu me sinto bastante confortável em me abrir sobre temas que inevitavelmente geram muito feedback negativo, como poligamia e divórcio. É fácil pra mim não esquentar a cabeça com críticas anônimas na internet depois de ter passado por tudo que passei.

(3) Amor próprio. Tive que aprender a me amar incondicionalmente. A minha autocrítica era muito pior do que a de qualquer outra pessoa. Eu estava muito decepcionado comigo mesmo, e me sentia culpado por desperdiçar tudo que parecia importante. Quando me recuperei disso tudo, o que levou bastante tempo, eu aos poucos aprendi a me aceitar, apesar das minha evidentes falhas. Aprendi que mesmo assim eu ainda era merecedor de amor. Todos nós somos. Ao me amar, passei a me importar com os outros. Uns dias atrás, percebi que uma amiga parecia estar se sentindo mal consigo mesma, então escrevi um recado para oferecer ajuda e lembrá-la que ela é amada e admirada. Claro que eu tive que procrastinar em alguma coisa “importante” pra fazer isso, mas talvez nossas listas de atividades deveriam conter mais tarefas desse tipo.

(4) Desenvolvimento pessoal. Em quarto lugar, eu fiquei mais motivado a fazer algo de bom com a minha vida. Eu estava tão decepcionado com a forma que estava vivendo que me forcei a ir pro lado totalmente oposto da situação. Comecei a dedicar bastante tempo ao desenvolvimento do meu caráter. As mudanças eram lentas e graduais, mas eu acabei virando um homem que se sente bem a respeito de si mesmo e de suas contribuições ao mundo.

(5) Aceitação. Em quinto lugar, eu passei a julgar muito menos as outras pessoas. Tendo em vista o meu passado sórdido, quem sou eu pra julgar as escolhas dos outros? Aprendi que aceitar os outros e me aceitar são dois lados de uma mesma moeda; não dá pra se aceitar e se amar sem fazer a mesma coisa em relação às outras pessoas. Quando eu escrevo um artigo, às vezes adoto uma posição bastante opinatória para estimular o pensamento das pessoas, mas isso é simplesmente uma ferramenta literária que eu utilizo pra fazer artigos melhores e mais impactantes. Quem me conhece sabe que eu aceito as pessoas do jeito que elas são, independente de seus estilos de vida. Consequentemente, eu pareço ter o hábito de atrair amigos que geralmente são julgados de forma negativa pela sociedade, incluindo psicóticos, strippers, atores e atrizes pornô, polígamos, maconheiros, gente sem crenças espirituais e, obviamente, aquela galera “louca” e desempregada. Isso tem acrescentado uma riqueza tremenda à minha vida, incluindo muitas experiências divertidas e educacionais que eu certamente não teria tido se tivesse julgado e me afastado dessas pessoas. Conviver com pessoas assim também me ajudou a me sentir muito mais confortável comigo mesmo.

(6) Liberdade. Por fim, eu ganhei muito mais liberdade. Já que errei de forma tão grandiosa, as expectativas de todos em relação a mim chegaram ao fundo do poço. Depois daquilo tudo, ninguém esperava nada de mim. Isso me proporcionou a liberdade social e emocional pra começar a assumir o controle da minha vida sem o sentimento de que eu precisava atingir as expectativas de alguém. Mesmo estando numa pior, eu senti que finalmente possuía os meios pra conduzir minha vida do meu jeito, sem me preocupar com o que os outros poderiam pensar. Eu dificilmente conseguiria piorar as coisas, então foi mais fácil assumir alguns riscos.

Até hoje sou imensamente grato por essas lições (e muitas outras), que surgiram como resultado da procrastinação. Não tenho certeza de onde vêm as minhas vontades, mas desde então aprendi a não rejeitá-las. Talvez essa origem esteja além da nossa compreensão, mas esses impulsos realmente existem e precisam ser escutados. A procrastinação é um meio de percebê-los. Use-a a seu favor.

Pare de se castigar e procrastine mais

Se você tem a tendência de se castigar por estar procrastinando, talvez devesse parar com isso. Isso não te ajuda em nada, não é mesmo?

O que aconteceria se você mergulhasse mais fundo nos seus impulsos de procrastinação? Pra onde eles podem te levar?

Talvez a procrastinação não pareça uma maldição tão grande se você seguir esses impulsos sem tanta culpa e resistência.

Você provavelmente acabará procrastinando mesmo, então porque não fazer isso em grande estilo?

Quando você sente a necessidade de procrastinar, o que você tende a fazer?

Prefere jogar jogos de computador? Talvez algum dia você crie um site de avaliação de jogos ou se torne um desenvolvedor. Talvez o ato de jogar evolua para um hobby divertido que você possa compartilhar com amigos e família. Você pode até acabar encontrando um companheiro(a) através de um jogo online.

Você gosta de dar uma escapada para ler livros? Se você ler o suficiente em determinada área, pode acabar se tornando um especialista internacional no assunto. Eu aprendi bastante sobre desenvolvimento pessoal lendo centenas de livros, mas isso aconteceu em um momento em que parecia que eu estava procrastinando em algo mais importante.

Você investe muito tempo e energia nas redes sociais? Talvez você encontre seu(sua) próximo(a) namorado(a) dessa forma, ou talvez você se torne um consultor bem-sucedido de mídias sociais. As empresas têm investindo milhares de dólares nesse tipo de consultoria apenas para aprenderem a utilizar o Twitter e o Facebook do jeito que somente os adolescentes sabem. Você pode acabar nem percebendo o quão valioso o seu conhecimento pode ser para as pessoas certas.

Talvez você possa fazer o que os piores procrastinadores do mundo frequentemente fazem: começar seu próprio blog de produtividade. ;)

Ter uma vida

O que você gostaria de estar fazendo ao invés de trabalhar para cumprir os prazos de outra pessoa? Se você parasse de resistir à tentação de procrastinar e simplesmente se rendesse a ela, quais experiências novas você traria pra sua vida?

Que outras emoções estão escondidas por trás desses sentimentos superficiais de estresse e resistência? Você também sente algum tipo de empolgação? E quanto ao sentimento de que talvez você pudesse fazer as coisas ditas “importantes” em metade do tempo que você havia estimado e ainda arranjar tempo pra fazer o que você ama? Talvez não seja uma ideia tão ruim jogar tudo pro alto hoje e ir se divertir.

Não é uma tendência natural fazer primeiro o que você gosta pra depois fazer o que você precisa fazer? Talvez você devesse esperar que as “coisas importantes” ganhem um certo nível de urgência antes de se dedicar a elas. Essa pressão tem alguns benefícios. Você provavelmente conseguiria concluir toneladas de trabalho com mais rapidez e concentração, utilizando recursos internos que jamais seria capaz de despertar se tivesse tempo de sobra.

Deixe que a procrastinação aconteça. Deixe a pressão aumentar. Se há algo que realmente precisa ser feito, você encontrará uma forma de fazer. Você sempre faz quando realmente importa, não faz? Não é como se você estivesse procrastinando enquanto está passando fome. Apesar de todos os seus piores casos de procrastinação, você continua vivo, não é?

Talvez haja alguma inteligência superior te instigando a atrasar tarefas e atividades que apenas parecem ser importantes mas, de fato, não são.

Você já parou pra pensar que ter uma vida talvez seja simplesmente o que acontece quando você está procrastinando? Quando você atrasa tarefas medíocres, cria mais espaço na sua vida para a inspiração e satisfação.

Espero que você tenha gostado desse artigo, já que eu procrastinei em muitas tarefas de contabilidade para escrevê-lo. Tenho certeza de que me sentirei completamente culpado sobre isso mais tarde.

Você teve que procrastinar em alguma coisa pra ler esse artigo, não teve?


foto: denn

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Steve Pavlina...

...é considerado o blogueiro internacional mais bem-sucedido e popular na área de desenvolvimento pessoal, com leitores em mais de 150 países. Por mês, seu site atrai mais de 2 milhões de pessoas - e isso sem propaganda, apenas no boca-a-boca. Leia seus artigos ou saiba mais sobre o autor.

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