Pratique o desapego – Como se desfazer de objetos de valor sentimental

Minha mãe faleceu em 2009. Nem preciso dizer que foi um momento extremamente difícil na minha vida.

Ela morava a 1500 quilômetros de distância e, quando faleceu, dar um jeito no apartamento dela na Flórida, EUA, ficou sob minha responsabilidade. Era um lugar pequeno, de um quarto, mas estava lotado com seus pertences. Minha mãe tinha bom gosto – ela poderia ter sido designer de interiores – e nada daquilo podia ser considerado bugiganga. Mesmo assim, havia muita coisa naquele apartamento.

Então eu fiz o que qualquer filho faria: aluguei um caminhão e entrei em contato com uma empresa de guarda-volumes em Ohio, onde moro, pra ter certeza de que tinham um espaço de armazenagem grande o suficiente. O frete ia custar $1,600 dolares e a armazenagem $120 por mês. Eu podia bancar isso financeiramente, mas logo descobri que o custo emocional era muito maior. 

Memórias

A princípio eu não queria me desfazer de nada. Se você já perdeu um pai, uma mãe ou ente querido, ou se já passou por uma situação emocional parecida, sabe exatamente o quão difícil seria pra mim ter que me desfazer de cada pertence de minha mãe. Então, ao invés disso, eu decidi entulhar todas as quinquilharias, roupas e móveis numa unidade de armazenagem. Dessa forma eu sabia que as coisas da minha mãe estavam lá, caso eu precisasse ter acesso a elas (por algum motivo incompreensível). Eu até planejei colocar algumas peças do apartamento dela na minha casa, como lembranças sutis.

Eu comecei encaixotando as coisas dela. Cada porta-retrato, boneca de porcelana, toalhinha de mesa. Eu encaixotei tudo que ela deixou.

Pelo menos eu achei que era tudo.

Então eu olhei debaixo da cama dela…

Em meio ao caos organizado que se encontrava sob a cama, havia cinco caixas, cada uma marcada com um número e selada com fita adesiva. Cortei a fita e encontrei documentos antigos da minha época de jardim da infância, de aproximadamente um quarto de século atrás. Provas, deveres de casa, trabalhos de arte, tudo estava ali, cada folha de papel dos meus primeiros cinco anos de escola. Tava claro que ela não mexia nas caixas há anos. Mesmo assim ela guardava essas coisas porque tentava preservar partes de mim, do meu passado, do mesmo jeito que eu estava tentando preservar partes dela e do seu passado.

Foi quando percebi que isso era inútil. Eu podia preservar as memórias dela sem aquelas coisas, exatamente da mesma forma que ela sempre se lembrou de mim, da minha infância e de todas as nossas memórias sem ter que abrir nenhuma daquelas caixas debaixo da cama. Ela não precisava de papéis de 25 anos atrás pra se lembrar de mim, assim como eu não precisava de um local de armazenagem cheio de seus pertences pra me lembrar dela.

Liguei pra transportadora e cancelei o frete. Depois, no decorrer dos dias, comecei a doar todas as coisas dela para instituições e pessoas que poderiam de fato utilizar tudo aquilo. 

O que eu aprendi

Claro que foi difícil me desfazer de tudo, mas entre as memórias e pertences da minha mãe eu acabei entendendo muitas coisas importantes através da nossa relação:

  1. O que eu tenho não me define. Nós somos mais do que nossos pertences.
  2. As memórias não vivem debaixo da cama. Elas estão dentro de nós, e não nas nossas coisas.
  3. Algo que tem valor sentimental para gente pode ser algo útil para outra pessoa.
  4. Guardar coisas nos sobrecarrega mental e emocionalmente. Se desfazer, nos liberta.
  5. Você pode tirar fotos das coisas das quais você quer se lembrar.
  6. Fotografias velhas podem ser escaneadas (mais sobre isso abaixo).

No entanto, não quero dar a impressão de que eu acho que coisas de valor sentimental sejam necessariamente ruins ou que guardá-las seja errado. O perigo do valor sentimental – e da sentimentalidade em geral – é muito mais sutil. Se você quer se desfazer de uma coisa e o único motivo de estar guardando aquilo é porque tem um valor sentimental – e isso é um peso pra você – então talvez esteja na hora de se livrar deste peso. Porém, isso não significa que você deva se desfazer de tudo. Não há regras. 

Dar um passo enorme ou engatinhar

Quando eu voltei a Ohio, levei seis caixas de fotos da minha mãe no porta-malas para escanear e armazenar online. Agora elas não ficam mais juntando pó num canto qualquer. Eu não só me livrei daquelas caixas bagunçando a minha casa,  mas também do peso emocional que elas traziam. E o melhor de tudo é que as fotos jamais poderão ser destruídas num incêndio.

Eu doei literalmente tudo. Cada móvel, roupa e item de decoração que ela tinha espalhado pela casa.

Esse foi um passo enorme que eu dei, mas sabia que precisava fazer isso pra remover o peso – a carga emocional – que carregava nos meus ombros.

Sabe, eu não preciso das coisas da minha mãe pra lembrar dela. Há vestígios dela por toda parte. No meu modo de agir, na forma como trato as pessoas e até mesmo no meu sorriso. Ela ainda está aqui.

Quando dou conselhos, geralmente ofereço duas opções. A primeira é a de dar um passo enorme, mergulhar de cabeça (ex.: se desfazer de tudo, se livrar da sua TV, jogar fora todas as suas coisas, tirar o esparadrapo de uma só vez, etc.). Essa opção não é pra todo mundo e na maioria das vezes também não é pra mim, mas nesse caso foi o que eu fiz. Eu doei tudo.

A segunda opção é engatinhar, o que às vezes funciona bem porque a própria ação funciona como impulso. Por exemplo: de qual objeto de valor sentimental você pode se desfazer hoje, que você já gostaria de ter se desfeito faz tempo? Livre-se dele. Depois escolha duas ou três coisas por semana e vá aumentando a quantidade gradativamente à medida em que for se sentindo confortável.

Independente da opção que escolher, o importante é agir. Pratique o desapego. Nunca abandone uma boa ideia sem colocá-la antes em prática. E aí? O que você vai fazer hoje pra se livrar das coisas de valor sentimental que têm um peso emocional pra você?

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Os Minimalistas...

...são Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus, que escrevem artigos sobre como ter uma vida mais completa e feliz possuindo menos coisas. Em 2010, criaram o site TheMinimalists.com, que hoje já conta com mais de 100.000 seguidores. Leia seus artigos ou saiba mais sobre o autor.

Comments

  1. Essa é uma situação muito delicada, normalmente só quem já passou por isso entende. Realmente “dar um passo enorme” pode ser mais duro, mais difícil… Às vezes até mesmo uma espécie de agressão. Ao “engatinhar” deixamos que o tempo passe, tornando-se mais claro e menos doloroso o fato de que as recordações de nossas pessoas queridas estarão em nós mesmos. Desfazer-nos de seus objetos torna-se então uma necessidade, pois a saudade e as recordações já terão seus significados em um lugar onde nunca se apagarão enquanto existirmos.

  2. Márcia Silva says:

    Engraçada a vida! Perdi meu bebê há pouco mais de dois anos, ele nem sequer chegou a nascer. No começo mantive todo o quarto arrumado porque tinha esperanças que logo teria outro. Depois não quis mais entrar lá, as lembranças eram dolorosas demais. Com muito custo abri a porta e doei algumas fraldas, e outros itens para bebês por causa da validade. Mais um tempo depois pintei as paredes do quarto para tirar o aspecto de quarto infantil, mas os moveis continuavam por lá. Até que decidi por conta própria que me faz mal ver essas coisas ainda porque não vai adiantar pintar o roupeiro, a poltrona de amamentar, desmanchar o berço e transformar num sofá…porque as lembranças ainda estarão ali e meu filho não vai voltar. E se um dia Deus me der outro filho quero recomeçar do zero. O desgaste do tempo pode estragar as coisas que eu nem sei se chegarei a usar um dia, por isso decidi me desfazer de tudo e coloquei os moveis a venda. Não quis com isso recuperar o valor investido, pois como disse o valor maior é sentimental. Mas pretendo com o dinheiro comprar outros moveis e transformar o antigo quarto em um escritório. Não é fácil, mas é preciso ser forte para tomar decisões como essa na vida.

  3. Somente oito anos após a morte do meu filho é que estou conseguindo desfazer o armário dele, doar as roupas e brinquedos. E acho que isso se deve por causa do recente falecimento do meu pai. Agora não consigo me desfazer das coisas do meu pai.
    O quarto dele está exatamente como ele deixou… as roupas… relógios, óculos etc…
    É um momento muito difícil… vou começar me desapegando das coisas do meu filho e que eu tenha força para superar tudo isso.

  4. duro mesmo, depois de 3 anos da morte da minha mãe e das piores manifestações sociopatas do meu pai estou sufocada de tantas coisas velhas e eu NÃO SEI POR QUE não consigo dar um destino pra elas… mas vou tentar, como vc sugere.

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